A sério que sim
5.12.11

Os meus anos de ensino primário, passei-os eu numa sala já velha de décadas, onde também a minha mãe havia estudado, e até tive o privilégio de ter a mesma (excelente) professora que ela. A escola era um único edifício, como já disse velho de décadas, casas-de-banho antiquadas e uma larga escadaria interior que levava à nossa sala do primeiro piso. Nunca tivemos de interromper uma aula que fosse por chuva, vento, calor - nada.

 

O ensino preparatório, passei-o numa escola também com décadas, onde também a minha mãe estudara. Houve uma expansão de um ano para o outro, até para acompanhar a explosão demográfica que se ia registando na zona. Como todas as expansões de então com restrições temporais, foi baseada em pré-fabricados. Mas nunca - nunca! - tivemos chuva numa sala.

 

Os 7º ao 9º anos, fi-los na escola adjacente, também com décadas de existência, também já frequentada pela minha mãe e onde ainda se mantinham alguns dos funcionários que a conheceram. Tal como na escola anterior, vinha sendo ampliada com pré-fabricados até que, no meu 9º ano, estes foram substituídos por um edifício novo. Nunca choveu ou vi qualquer sinal de decrepitude nas suas paredes.

 

Nos 3 anos finais de escolaridade, frequentei uma escola em Almada, construída se não estou em erro na década de 50 ou 60, onde ambos os meus pais já tinham estudado. Era um edifício enorme, com tectos altos e largos corredores. Quase colados à estrutura, situavam-se dois ou três pequenos pré-fabricados castanhos que funcionavam como salas extra. E não, nunca choveu em qualquer das nossas salas, nem no ginásio, nem em nenhum local que eu visse.

 

Não possuíamos salas de convívio com mesas de snooker e plasmas sintonizados na MTV, nem wifis para os portáteis e smartphones, nem projectores e ecrãs interactivos nas salas, nem todos estes "avanços civilizacionais" que se dão hoje por garantidos. As bibliotecas eram salas pequenas - mas que até os mais rebeldes frequentavam com interesse - e, com sorte, havia algures uma ou duas decrépitas mesas de matraquilhos. E no entanto, neste nosso novo Portugal, neste Portugal moderninho e avançado, uma escola mete água após obras de 8,6 milhões de euros.

 

Eu vou escrever o número por extenso: 8.600.000,00€ correspondem a quase dois milhões de contos. Chove nas salas. Chove no ginásio. Os azulejos descascam. Baldes tentam conter as fugas. Isto é toda uma metáfora do país que nos foi deixado pelo louco neo-filósofo: com ares de limpinho e moderninho, na realidade a desfazer-se como um castelo de cartas.

link do postPor João Sousa, às 13:49  comentar

 
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