A sério que sim
7.8.13

Veio-me à atenção que Óscar Mascarenhas escreveu um texto "polémico" no Diário de Notícias. Quando a prosa vem de um jornalista de Esquerda para malhar na Direita, é "polémica"; se vem de um jornalista de Direita para zurzir na Esquerda, chama-se "ressabiamento".

 

Mas o que temos aqui não é polémica nem ressabiamento. O que temos aqui é simplesmente Óscar Mascarenhas.

 

"Aldrabões. Não faço por menos. Mandam as artes e manhas dos artigos de opinião..."

 

Começa assim o texto. E logo começa com um erro: o que ele perpetrar daqui para a frente não pode ser visto segundo as regras de um artigo de opinião - porque ele é o Provedor do Leitor de um jornal, não um cronista ou comentadeiro. Isto, claro, apesar de os seus escritos aparecerem na secção "Opinião" - mas não esperemos muito deste DN dirigido por João Marcelino e posse do "amigo Oliveira".

 

"... que não se diga logo ao que vem o autor..."

 

Segundo erro: mal se vê a assinatura de Óscar Mascarenhas, já se sabe perfeitamente ao que vem. Quem siga a sua carreira artística, e eu conheço-a de há décadas, sabe que nunca tentou sequer disfarçar todas as suas costelas esquerdistas. Jornalista de cujas reportagens e investigações não me recordo, Mascarenhas tem sido, no entanto, presença omnipresente nas colunas de opinião do DN.

 

Parece que Óscar Marcarenhas diz não saber se tem ideologia. Mascarenhas quer-nos insultar - por menosprezo de inteligência.

 

"... para manter o leitor agarrado ao prazer do texto."

 

A modéstia há-de ser a perdição deste rapaz.

 

"Mas desta vez, iconoclasta como me quero, finto as regras e vou direto ao assunto: ..."

 

O iconoclasta Óscar finta, quebra, estilhaça as regras, sim - mas não as que regem os artigos de opinião. Mascarenhas arrasa, sim, as regras que deviam guiar um Provedor do Leitor, ao usar o seu espaço como tribuna de comício.

 

"os senhores (professores doutores ou doutorandos e mais o que desejarem ser no currículo e na mercearia do bairro) Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba,"

 

O iconoclasta Óscar inicia desta forma a sua saga justiceira. Recorre à velha táctica de menorizar o oponente ridicularizando o peso relativo dos títulos que possui, e aproveita en passant para insinuar a vacuidade dos mesmos. Para sua infelicidade, escolheu mal os alvos: nem Poiares Maduro, nem Pedro Lomba, são arrivistas que chegaram à política sem passado, e os títulos que ostentam, ninguém ainda surgiu a provar ou sugerir que tenham sido obtidos por outra coisa que não mérito.

 

"nos poucos dias que levam de governo, já deram provas de terem sido aldrabões. Não digo que o sejam, que não sou tão pateta e desajeitado que abra um alçapão legal sob os meus próprios pés perante juristas assim ditos tão eminentes: afirmo que o foram. Episódica e admito que corrigivelmente."

 

Óscar chama aldrabões aos dois governantes, mas cobre-se de cuidados para evitar processos - e pisca-nos o olho, com ar cúmplice, deliciado com a sua esperteza. Faz-me recordar o Bocage na anedota dos gafanhotos.

 

E só agora terminámos o primeiro de 27 parágrafos!

 

Façamos um fast-forward no texto:

 

"Venham os Poiares Pedros ou os Lombas Maduros que vierem, jornalista do DN que se acobarde perante este fascismo com pés de lã, pode ter a certeza, à fé de quem sou, que fica com o nome num pelourinho de cobardolas que prometo expor aos leitores. Porque é dos direitos dos leitores que estamos a falar. Enquanto estiver nesta casa e nela tiver voz, o fascismo não entra de esguelha."

 

Isto é grave. Isto é muito grave e, no entanto, no meio de tantos parágrafos, ninguém pareceu reparar. Na prática, o grande, o gravítico Mascarenhas está-nos a garantir que qualquer jornalista que não tenha, para com os governantes em exercício, a "incomodidade" que ele, o imenso Mascarenhas, acha exigível - será chibado por si, para que todos o saibam. O jornalista Óscar Mascarenhas sonha com uma lista negra de jornalistas. Óscar Mascarenhas parece suspirar, com indisfarçável nostalgia, pelos ventos de liberdade que se respiraram no mesmo DN enquanto foi dirigido pelo depois nobelizado Saramago. Mascarenhas manifesta publicamente, e sem sombra de pudor, a sua vocação - para bufo.

 

É bom de ver que eu não vou fazer uma análise exaustiva da prosa mascarenha - porque o objecto desmerece o tempo investido. Já chega. Leiam o texto, que vale a pena. Do princípio ao fim, Óscar Mascarenhas oferece-nos um sermão de ódio, despeito e boçalidade que não pareceria deslocado num editorial do Avante, mas que só neste DN dirigido por Marcelino e possuído pelo "amigo Oliveira" é possível ler assinado por um Provedor do Leitor - sem que este passe imediatamente a ser um ex-Provedor do Leitor.

 

Mas há mais um ponto que me merece comentário: Óscar Mascarenhas garante-nos no título que "Poiares Maduro e Lomba são tão-somente o fascismo a bater-nos ao de leve à porta". Isto por causa de uns briefings. Suponho que Mascarenhas tenha saudades dos tempos de José Sócrates, em que assessores assediavam jornalistas incómodos; em que o próprio telefonava irado a directores de jornais; em que elementos ligados ao PS pretenderam catalisar a compra de uma televisão não-alinhada; em que um primeiro-ministro aparecia em eventos de propaganda inteiramente ficcionais (alguém ainda se lembra da farsa do primeiro computador português?) e recebia de braços abertos "líderes carismáticos"; em que "fontes próximas do Governo" espalhavam informação errada nas redacções de jornais para minar a credibilidade da imprensa; em que José Sócrates processava freneticamente jornalistas, opinadores e bloguers que se permitiam a mínima actividade de escrutínio ou cepticismo.

 

Se os briefings de Maduro e Lomba são o fascismo a bater-nos ao de leve à porta, o regime socrático foi o fascismo a deitá-la abaixo com um pontapé, a entrar-nos em casa e a lançar granadas de gás lacrimogéneo.

 

O que é um Provedor do Leitor? É alguém escolhido para defender o Leitor do jornalismo exercido incorrectamente. Um Provedor do Leitor está lá para escrutinar o desempenho dos seus colegas jornalistas; para criticar más metodologias; para expor aleijões à deontologia. Um Provedor do Leitor deve-se pronunciar sobre o trabalho do jornalista na elaboração de uma notícia - não sobre a notícia, e nunca procurar ser a própria notícia. Enquanto Provedor do Leitor, o seu objectivo primeiro deveria ser chamar a atenção para a matéria que analisa, até com algum distanciamento clínico, e fazê-lo com uma linguagem clara e técnica. Contudo, inflado de soberba como o sapo de La Fontaine, crente da sua infalibilidade ética como é uso nos jornalistas-militantes-de-Esquerda (e que exibem, ao mesmo tempo, um burguesíssimo ventre), Mascarenhas recorre a um estilo barroco e bacoco. Mas se Eça era sarcástico, e por isso eficaz, Óscar Mascarenhas mostra-se apenas um pedante - um pedante cheio de si mesmo, e pronto a subverter o cargo que lhe deveria merecer respeito por mera compulsão exibicionista.

link do postPor João Sousa, às 15:30  comentar

 
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