A sério que sim
12.8.13

Fernando Seara vai-se candidatar à Câmara de Lisboa; Fernando Seara não se pode candidatar à Câmara de Lisboa; afinal, Fernando Seara sempre se pode candidatar à Câmara de Lisboa...

 

Nisto tudo, o que mais me surpreende não é o imbróglio causado por (mais) uma lei mal elaborada pela nossa deputação. Nem sequer é o prazer assumido com que os juízes se vão tornando cada vez mais parte activa do jogo político.

 

Não: aquilo que mais me surpreende é que depois de reinado e meio de António Costa, os candidatos conhecidos consigam a proeza de não só garantirem a manutenção da nulidade que tem sido a sua gestão camarária, como também que reforce a sua votação!

 

Quais as marcas (cicatrizes será uma palavra mais correcta) do edil Costa em Lisboa? Vejamos: há locais em que o lixo transborda dos contentores como se estes fossem perversas cornucópias. Noutros, manchas de urina decoram as paredes e o seu cheiro acidifica o ar. A cidade é um contínuo estaleiro, e os passeios e ruas cobrem-se de areia e pó, ou lama quando cai um chuvisco, ou lagos quando chove pouco mais do que um chuvisco - pois mais depressa se conseguirá a fusão fria do que, em Lisboa, se resolverá o problema do escoamento da água. A zona dos Anjos tornou-se um prostíbulo a céu aberto. Num claro desrespeito pelo lisboeta ou simples frequentador, passeios vêem-se encolhidos para albergar ciclovias que estão às moscas. Gastou-se mais de meio milhão de euros em experiências de trânsito na Rotunda do Marquês, mas não há uns míseros milhares para recuperar o quiosque da Estrela, que vai entretanto apodrecendo e será - eventualmente - recuperado "o que for possível" (expressão notável).

 

Observe-se a Rua do Ouro.

 

Aproxima-se a campanha eleitoral, e é preciso mostrar alguma obra? Esventre-se, a semanas das eleições, a Rua do Ouro! A obra foi mal planeada, provocando curto-circuitos na cablagem da Carris, e a segurança foi negligenciada, criando dificuldades a uma eventual actuação dos bombeiros? Coincide com o pico do turismo? As lojas vêem-se privadas de dois meses altos de facturação? Os restaurantes lutam com a poeira que lhes entra pela porta, e o ruído que faz vibrar as vitrinas? O visitante, esperando a cidade cuja beleza é elogiada na imprensa internacional, depara-se com o Rossio invadido por vendedores de haxe e uma das ruas comerciais monopolizada pelas máquinas, em que se tem de espremer entre os prédios e as redes das obras? O turista, em vez de ser banhado pela famosa luz de Lisboa, vê o seu reflexo nas pás das escavadoras?

Aos actuais ocupas da Câmara, nada disto interessa. O que interessa é fazer o eleitor esquecer, ele que já tem por génese tão fraca memória, anos de imobilismo quando se devia ter agido, e medidas folclóricas quando seria preferível a inércia. Mostre-se obra ao povo!

 

A câmara de Lisboa, para o alcaide António Costa, não passa, nunca passou e nunca passará de um local de pousio onde aguarda o tempo oportuno para outras aventuras eleitorais (aprendeu com Jorge Sampaio). A sua actuação tem-se pautado por um claro desinteresse, na melhor das hipóteses, e pela mais danosa negligência na pior.

 

Fosse isto um país decente, e o eleitorado uma classe informada e exigente, os Costas, Salgados e Zés não seriam premiados nas urnas pelos seus actos - mas sim sentados nos tribunais.

link do postPor João Sousa, às 19:30  comentar

 
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