A sério que sim
9.12.11

Eu gostava de dedicar algum do meu tempo a estas recentes declarações de Sócrates e às reacções dos seus apaniguados. Sempre tive curiosidade pelas manifestações de irracionalidade que, persistentemente, contrariam o título de "único animal racional" com que a nossa espécie se arroga.

 

Mas não o consigo fazer. Só consigo escrever um par de parágrafos apressados. As gentes em questão não merecem muito mais da minha atenção.

 

Sócrates disse, ou a sua claque quer dar a entender que o disse, que a dívida de um país é eterna - o que deve é ser contida dentro de limites razoáveis. Aquilo que critico não é a legitimidade desta teoria: acho-a defensável (dentro de limites). O que eu critico é ele argumentar com algo que o próprio, premeditadamente, não cumpriu: "dentro de limites razoáveis". Critico também que ele dê a entender que, em algum momento, alguém agora no poder tenha afirmado que o país devia pagar a totalidade da sua dívida com um cheque. Isto tem nomes: hipocrisia, desplante, desonestidade.

 

Sócrates comportou-se criminosamente, endividando sempre mais o Estado para a sua preservação no Poder (aumento absurdo dos funcionários públicos antes das legislativas) e para sustentar projectos de viabilidade questionável e legitimidade duvidosa. Sócrates tentou levar por diante a expressão irresponsável: "se devemos cem mil euros a um banco e não podemos pagar, estamos em apuros; se devemos dez milhões de euros a um banco e não podemos pagar, o banco está em apuros". No regabofe de velhacarias que se mostrou o seu consulado, Sócrates considerou a dívida uma coisa eterna, sim - e fê-la tender para infinito.

 

E ver a bloga socrática defendê-lo, apesar de tudo o que se passou e foi feito, tem tanto de fascinante como repulsivo - um pouco como quando eu, na minha infância, observava com fascínio os cadáveres de animais atropelados serem gradualmente consumidos pelas formigas e escaravelhos. Ver os jugulares, os corporativos, os valupis, as isabeis moreiras e os anónimos desta blogosfera defender um louco irresponsável com o grau de abnegação com que o fazem, é para mim um exercício de pura incompreensão. É ver de novo mulheres escreverem declarações de amor a Ted Bundy; é ver de novo hordas de fanáticos predisporem-se ao sacrifício ou à perpetração de atrocidades em nome de um ditador.

 

Reparem neste dislate já antigo do Valupi:

 

"[Augusto] Santos Silva esmagador é a norma. Ele tem as informações, a boa-fé e a literacia."

 

Ou nesta idiotice, lida recentemente nos comentários do AspirinaB:

 

"Ouvir Sócrates em mais um exercício de inteligência, honestidade intelectual e elementar sensatez foi um gosto."

 

Galamba, Isabel Moreira, f, Lello, Augusto Santos Silva, Vitalino Canas e anónimos da blogosfera que defendem o indefensável, justificam o injustificável: quem são estas gentes? Idiotas? Tão loucos como aquele que defendem? Desprovidos de auto-estima que se dispõem a estas figuras tristes, como um cachorro patético que abana a cauda deliciado com uma atenção distraída do dono?

 

Ou, pelo contrário, serão tão igualmente egocêntricos, incendiários que vão observar os fogos que ateiam, que colocam o seu ego acima de tudo, até do país onde nasceram, cresceram e vivem, e preferem como Lúcifer "reinar no Inferno a servir no Paraíso"?

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link do postPor João Sousa, às 13:27  comentar

 
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