A sério que sim
23.1.12

António Mega Ferreira mereceu a minha simpatia quando não se mostrou particularmente entusiasmado com a ida da Colecção Berardo para o Centro Cultural de Belém, transformando este de facto num Centro Cultural Berardo. Joe Berardo mereceu a minha simpatia quando sugeriu a demissão de Mega Ferreira do CCB.

 

A não recondução de Mega Ferreira como administrador do CCB e a nomeação de Vasco Graça Moura para o substituir tem sido tema de vozes e textos irados vindos da esquerda. Catarina Martins, do BE, e a tontinha Canavilhas, do PS, foram particularmente activas. O que eu acho que este tema merece é isto: . Ou seja, nada.

 

Só que é um mundo imperfeito, este em que vivemos. Num mundo perfeito, o que aconteceu seria pacífico - até pelas pessoas envolvidas.

 

(...) tem sido particularmente evidente uma "estratégia de afastamento sem qualquer justificação que é muitíssimo preocupante", diz Catarina Martins, do Bloco de Esquerda.


Ao caso da substituição de Mega Ferreira por Graça Moura na presidência do CCB, a deputada junta o de Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia, e o de Diogo Infante, ex-responsável artístico pelo Teatro Nacional D. Maria II, para falar de "um clima pouco saudável" e de uma Secretaria de Estado apostada em calar todas as vozes discordantes.

 

De Luis Raposo não falo porque não acompanhei o processo. De Diogo Infante, penso que a deputada não devia fazer tese tão calorenta.

 

Não tenho particular opinião em relação à carreira de actor de Diogo Infante - pela razão de não a ter acompanhado. No entanto, a passagem pelo Teatro Nacional D. Maria II mostra várias facetas do seu carácter: a entrada foi uma iniquidade; a sua saída, uma birra. Mas este parece ser o perfil do homem moderno tal como é preconizado pela filosofia socretina: falho de escrúpulos, acima das regras.

 

Em 2010 e 2011, as direcções do D. Maria II e de outros teatros receberam ordens para reduzir os custos de funcionamento em 15%. Diogo Infante fez ouvidos de mercador; os outros teatros cumpriram. E os emissores destas ordens - governo PS, ministra Canavilhas - demitiram Infante pelo incumprimento? Chamaram-no ao menos para um puxão de orelhas? Não. Amocharam. Olharam para o lado.

 

Desconheço que poderes especiais Diogo Infante possui para poder incumprir aquilo que outros acatam. Talvez fique bem na capa da Caras e a tutela da altura achasse que isso era levar o Teatro às cabeleireiras. Mas se a normalidade reinasse, Catarina Martins não teria dito o que disse - pela simples razão de Diogo Infante já ter sido corrido do seu posto há muito mais tempo.

 

Passo então para aquilo que deu origem a este ruído: Mega Ferreira e o CCB. Canavilhas, sempre ela, afirma inegável que Mega Ferreira fez dois mandatos excelentes:

 

Não há absolutamente nada a apontar a Mega Ferreira, nem ao nível programático e artístico, nem ao nível da gestão.

 

Canavilhas terá mais razão do que pensa. Talvez seja um facto que não haja nada a apontar à gestão de Mega Ferreira. Não há Festa da Música, transformada numa pífia Os Dias Da Música Em Belém. Não há Centro de Exposições, transformado em Museu Colecção Berardo pela negociata patrocinada por Sócrates. Não há novos módulos onde seriam instalados um auditório, uma biblioteca e uma área multiusos. Mas não há, acima de tudo, uma defesa do CCB. Possuísse Mega Ferreira uma espinha ainda direita e teria batido com a porta quando Sócrates lhe impôs a negociata Berardo. Mas não: na melhor das hipóteses, amuou - porque o chequezinho ao fim do mês é necessário para os charutos e as Montblanc.

 

Canavilhas diz mais: 

 

(...) a saída de Mega Ferreira só pode ser explicada por motivações partidárias

 

Neste caso, acho perfeitamente natural que sim. Aliás: neste caso, desejo sinceramente que sim. A ex-ministra por certo esqueceu a falta de elegância atroz com que, nas últimas legislativas, Mega Ferreira mostrou publicamente o seu apoio a Sócrates contra Passos Coelho:

 

Também António Mega Ferreira falou sobre o principal adversário do PS nas eleições, mas em vez de nomear Pedro Passos Coelho referiu-se sempre a um “líder partidário cujo nome não me ocorre”.

 

Depois desta actuação, tivesse Mega Ferreira um pingo de carácter e poria o seu lugar à disposição de Passos Coelho mal este tomasse posse - até para não colocar o seu amigo Francisco José Viegas numa posição obviamente desconfortável. 

link do postPor João Sousa, às 00:52  comentar

 
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