A sério que sim
16.3.12

 

O Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não é virgem neste tipo de ideias. Há tempos, sugeriu um imposto sobre a fast-food. Agora, mostrou um biscoito de 50 quilocalorias, muniu-se de uma calculadora, e concluiu que:

 

(...) comer um biscoito todos os dias, sem compensar noutras refeições, representa mais 18250 quilocalorias ao ano, o suficiente para engordar 2,5 quilos. Se a opção for abatê-los com exercício, seria preciso andar 1 Km por dia.

 

Eu proponho o seguinte: quem for a um supermercado e quiser comprar um pacote de Belgas, tem de provar à priori que percorreu um determinado número de quilómetros. [Cada pacote de comida teria esse número na embalagem - um pouco como os avisos nos maços de cigarros.] A Ordem dos Médicos coloca nos percursos à beira-Tejo um conjunto de equipamentos onde o cidadão pode registar as suas caminhadas. Munido do seu relatoriozinho, apresenta a folhinha na caixa do supermercado. A funcionária compara a quilometragem do cliente com a exigida pelas bolachas e, ou coincide e aceita, ou verifica que o cliente está em falta e recusa:

 

- Não, não, precisava de ter percorrido mais 570 metros para comer estas bolachas. O seu relatório de exercícios só lhe dá direito a três Gressinos.

 

Como o delírio do bastonário não fosse já evidente, prosseguiu:

 

"A discussão lançada pela Ordem contribuiu para a subida do IVA nos refrigerantes." Na sua opinião, ainda não é suficiente. (...) "Não deviam ser taxados a 23%, mas a 100%".

 

E porquê ser-se tão pouco ambicioso? Porque não 500%? Porque não obrigar quem se pretende envenenar com estas águas sujas do imperialismo, óbvio comportamento anti-social, a cumprir serviço comunitário?

 

"Impostos inteligentes", dizem eles. Gente parva, digo eu.

 

A tese, partilhada por alguns fanáticos de pupilas dilatadas, de que o Estado deve proteger-nos de nós próprios regulando a quantidade de calorias que nos é permitido enfiar na goela, devia preocupar as pessoas mentalmente sãs. Seria um precedente grave, este, o de permitir que se limite abusivamente a liberdade individual de um indivíduo com o pretexto de isso "reduzir os futuros encargos do SNS suportado por todos nós". Porque, a partir daqui, seria impossível negar a extrapolação para outras áreas. E a literatura está cheia destes admiráveis mundos novos:

 

- Grupo dos trinta aos quarenta! - latiu uma estridente voz feminina. - Grupo dos trinta aos quarenta! Para os vossos lugares, por favor. Trinta aos quarenta!

 

Winston pôs-se em sentido diante do telecrã, onde já aparecia a imagem de uma mulher ainda jovem, magra mas musculada, com uniforme e sapatos de ginástica.

 

- Flectir e esticar os braços! - vociferou. - Acompanhem o meu ritmo. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vá lá, camaradas, um pouco mais de energia! Um, dois, três quatro! Um, dois, três, quatro!...


 1984, George Orwell

link do postPor João Sousa, às 12:02  comentar

 
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