A sério que sim
1.4.12

O Homem, criatura que se atribui (sem corar) o título de "único animal racional", desmente-se continuadamente em relação à racionalidade e esquece-se da sua animalidade - enquanto pratica esta de forma infrene.

 

Hoje, percorri na transversal o Jornal de Notícias online. É um verdadeiro desfilar de horrores. Tal como Dante, descemos ao Inferno e vemos a corrupção, a loucura e a podridão que existem neste nosso pequenino rectângulo de mundo.

 

Aqui, um idoso de 73 anos tentou agredir a tiro e à martelada uma vizinha que fazia mudanças às 10 da noite. Já não se acredita na existência de uma Autoridade que nos proteja da insensatez e da falta de civismo: responde-se - de forma algo desproporcionada, diria eu - com um martelo e uma pistola apontados à cabeça.

 

Aqui, um bancário (estamos a falar de um director de banco, não de um trolha avinhado ou de um cavador de batatas algures numa quinta isolada) violou e agrediu a filha adoptiva, de forma sistemática e ao longo de sete anos. O notável cavalheiro justifica-se afirmando que se apaixonou pela criança e que ela também "queria" ter sexo com ele. A jovem tem hoje quinze anos: se a matemática não me falha, este gentil-homem iniciou os abusos (ou, segundo ele, "apaixonou-se") quando ela tinha oito anos. Eu repito: 8.

 

Aqui, o língua-de-pau Manuel Tavares, director do jornal, faz um ridículo exercício de revisionismo: apresenta-nos um Sócrates trágico e injustiçado, um Sócrates tão paralelo à realidade que conhecemos que se diria resgatado a um outro universo. O Sócrates que Manuel Tavares nos pintou no Sábado (logo, não penso ser uma brincadeira de Dia das Mentiras) foi "um líder demasiado forte", um líder temido e detestado por aqueles homens menores que eram incapazes de acompanhar o seu "trabalho intenso para estar informado". Um Sócrates que criou adversários no interior do seu partido por procurar fora dele "pessoas e instituições que o ajudassem a concretizar as suas políticas" (vêm-me à memória três exemplos desse escol: Armando Vara, Joe Berardo, JP Sá Couto). Um Sócrates que "nos últimos meses de governação (...), quando já declarara a absoluta necessidade de atacar a dívida acumulada bem como as despesas de funcionamento da Administração Pública" (dívida e despesas pelas quais, fico em crer, Manuel Tavares não imputa qualquer responsabilidade aos desmandos desse Übermensch chamado José Sócrates), foi traído por "passarões especialistas em usar e abusar dos cartões de filiação partidária" que "desataram a arranjar empregos para a vida a familiares e amigos ou a concluir negócios improváveis à luz da falta de dinheiro e dos sacrifícios que a crise já prometia". Foi assim que se passou, remata o oráculo Tavares, o pitoniso Tavares.

 

Para quê deprimir por um passado que já não pode ser corrigido? Este presente é grotesco o suficiente para o fazer pelos seus méritos - com a (des)vantagem de ser alheio.

link do postPor João Sousa, às 13:07  comentar

 
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