A sério que sim
11.4.12

Parece que a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues foi ao Parlamento dizer de sua justiça sobre a Parque Escolar, obra sua. Ao contrário do que Estrela Serrano e outras vozes próximas do socratismo disseram e dirão, não penso ter sido um extraordinário desempenho de um conhecedor dos dossiês: foi um desempenho cara-de-pau de um político. Ao bom estilo socrático, misturou conceitos, deturpou datas e respondeu com slogans em vez de explicações. Reconheço isto: MLR teria sido uma boa advogada.

 

Deixarei a análise aprofundada para outros, melhores e com mais paciência do que eu. Limitar-me-ei a apontar para um trio de pontos que penso reflectirem a arrogância ou má-fé ou loucura da ex-ministra (ainda não decidi qual destas é).

 

A ex-ministra reconheceu que foi um programa caro mas, a propósito, lembrou o ditado popular "o que é barato, às vezes, sai caro". Segundo Maria de Lurdes Rodrigues foi isso que "aconteceu às nossas escolas" nas intervenções anteriores à existência da Parque Escolar.

 

A ex-ministra citou a propósito uma intervenção realizada na escola secundária Camões, entre 2000 e 2005, orçada em 4 milhões de euros e que não só não melhorou as condições daquele liceu histórico, como pode ter causado um "imenso prejuízo" na estrutura daquela escola.

 

Acho sempre bem que, numa discussão que se pretende técnica, alguém introduza um ditado popular à laia de argumento. Mas gosto principalmente que a ex-ministra apresente, como exemplo de um "barato que saiu caro" pré-Parque-Escolar, um projecto supostamente falhado orçado em 4 milhões de euros. E gosto porquê? Porque eu já mencionei antes um projecto da era Parque Escolar, que mete literalmente água e se esboroa, e que foi orçado em 8 milhões de euros. Foi só o dobro, sra. ex-ministra, e chove nas salas, chove no ginásio, os azulejos descascam e baldes tentam conter as fugas. Mas talvez para a ex-ministra a Escola Secundária Alcaides de Faria tenha saído cara por 8 milhões de euros serem barato - talvez se devesse ter lá enterrado 16 milhões...

 

A ex-ministra lamentou também que nas escolas se “considere ser luxo o que não é considerado como luxo noutros espaços”. Maria de Lurdes Rodrigues respondia assim às observações de deputados do PSD e do CDS sobre a compra de 12 candeeiros de Siza Vieira, por 1700 euros cada, para uma das escolas requalificadas e a utilização de materiais nobres em várias instalações, que também é criticada no relatório da IGF.

 

Fico deliciado: a ex-ministra lamenta que nas escolas seja considerado luxo aquilo que não é considerado noutros locais. Pois deixe-me explicar-lhe isto, sra. ex-ministra, e nem vou cobrar por tal: no mundo real, há de facto coisas que se justificam nuns locais e não noutros. Justifica-se, num casino de Las Vegas, colunas em mármore Carrara - mas o mesmo não terá razão de ser num armazém de rações. De igual modo, justifica-se que a relações públicas de uma cadeia de hotéis se vista com um fato de qualidade feito à medida - mas há que reconhecer que tal será um pouco excessivo numa oficina bate-chapa...

 

Tentar justificar os 12 candeeiros de Siza Vieira, orçando 1700 euros cada (20.400 euros no total), é um exercício impossível. Só tentar fazê-lo é insultuoso para quem ouve. Não consigo imaginar quantos valores a média dos alunos melhorou com tanta auto-estima fornecida pelos candeeiros de Siza Vieira.

 

São 1700 euros por candeeiro: em moeda antiga, cerca de 340 contos cada. Sabe a sra. ex-ministra o que vale cada um destes candeeiros mágicos? Vale certamente as obras completas dos clássicos portugueses na biblioteca de uma escola. Vale provavelmente mesas e cadeiras para uma ou duas salas de aula. Pelo custo de cada um desses candeeiros, muito boa gente é capaz de equipar a sua cozinha - e ainda sobrar dinheiro para o faqueiro e toalhas.

 

Para terminar, diz Maria de Lurdes Rodrigues:

 

“O programa da Parque Escolar foi uma festa para as escolas, para os alunos, para a arquitectura, para a engenharia, para o emprego e para a economia”

 

Esqueceu-se das fadas e das libelinhas, sra. ex-ministra.

link do postPor João Sousa, às 23:46  comentar

 
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