A sério que sim
13.6.12

No conto de Isaac Asimov Será Que Uma Abelha Se Importa?, o personagem Kane atravessa os séculos, anónimo e discreto, provocando saltos no pensamento científico com a sua presença. Ele não tem uma acção directa nos acontecimentos, nem sequer sabe muito bem o que faz, como o faz e para quê. É apenas uma espécie de catalisador, substância que potencia uma reacção sem ser alterada por ela:

 

"Kane lembrava-se que tinha sido sempre assim, especialmente com teóricos. Quando Lise Meitner decidira procurar bário entre os elementos do bombardeamento de neutrões, Kane estava lá, caminhando por um corredor do laboratório.

 

Em 1904, andava a apanhar folhas e lixo num parque, quando o jovem Einstein passou por ele, meditando. A passada de Einstein aumentara de velocidade com o impacto de uma ideia súbita. Kane sentiu-o como um choque eléctrico.

 

Recuou ainda mais no tempo. No dia em que o jovem Newton olhara para a Lua, no alvorecer de um certo pensamento, Kane estava lá. E mais atrás ainda."

 

Isto veio-me à memória a propósito de Rui Paulo Figueiredo, deputado do PS e presidente da concelhia socialista de Lisboa. Vejamos estes três acontecimentos, na aparência afastados entre si: caso Presidência da República/espionagem de 2009; caso PPPs; caso Paulo Pereira Cristóvão. Há algum ponto de contacto entre eles? Sim, pelo menos um: a presença algures no processo de Rui Paulo Figueiredo.

 

1) Em 2009, Rui Paulo Figueiredo era, isto parece ser globalmente assumido, os olhos de Sócrates que a Presidência da República pensava estarem-lhe a fazer uma marcação estranhamente cerrada.

 

2) Rui Paulo Figueiredo é o homem que, qual Mandrake, fez aparecer do nada um putativo relatório minoritário de dentro do Tribunal de Contas que colocaria em xeque as conclusões deste sobre as PPPs. Figueiredo é o coordenador do Grupo Parlamentar do PS na comissão de inquérito às PPPs. Como em qualquer romance passado na Guerra-Fria, esse relatório minoritário chegou-lhe às mãos depositado, anonimamente, no cacifo de um deputado do PS também não identificado.

 

[A autenticidade de tal documento, entretanto cabalmente desmentido pela actuação do próprio TC, sempre pareceu altamente questionável. A ideia de alguém, anónimo e discreto, iludir a vigilância do Parlamento, entrar numa área reservada como imagino serem os cacifos da nossa deputação, depositar num deles o envelope, e sair de lá sem sequer uma abordagem, parece-me próxima da alucinação - mas incapaz, pelos vistos, de levantar um sobrolho do jornalismo de investigação.]

 

3) Rui Paulo Figueiredo é vogal do Conselho Directivo do Sporting, pertence à mesma direcção onde esteve até agora Paulo Pereira Cristóvão, e têm estado os dois entretidos numa luta intestina de poder e influência junto do presidente Godinho Lopes. Paulo Pereira Cristóvão vê-se envolvido num processo de corrupção desportiva - que pouca gente compreende para que serviu -, e mais uns desvios de dinheiro.

 

Eu sei que o país é pequeno, e que toda a gente corre o risco de conhecer toda a gente. Mas este nome, Rui Paulo Figueiredo, parece surgir com particular insistência quando são casos que envolvam recolha de informação, cuscuvilhice ou geração de desinformação. Não me surpreende, portanto, o facto de também pertencer à Maçonaria, entidade que parece surgir com igual frequência em qualquer assunto minimamente escandaloso. Não me admira também que tenha sido "irmão" de Jorge Silva Carvalho e agora estejam em Lojas rivais. Seria uma surpresa enorme se, no caso de um jornal agarrar este assunto, viesse a descobrir que Rui Paulo Figueiredo esteve de alguma forma envolvido nas fugas de (des)informação que têm alimentado o caso Relvas?

 

Ao contrário do inócuo Kane, este moço a quem Sócrates deu palco parece saber muito bem o que fazer, quando, a quem e com quem. Eu acredito em coincidências, mas também estou convencido de que quando estas ocorrem com constância e em sucessão, deixam de ser coincidência e passam a outra coisa: regra. Estarão, por uma vez, os paranóicos certos? Será, de facto, este pobre país um mero tabuleiro de xadrez onde gentinha reles se diverte nos seus joguinhos de poder, formando clubes com nomes como Mozart, Mercúrio, Brasília? Seremos nós, realmente, pasto de anões que brincam aos deuses?

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link do postPor João Sousa, às 21:28  comentar

 
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