A sério que sim
21.6.12

Vieram a público mais informações sobre as obras da Parque Escolar. Em particular, nas escolas Passos Manuel e D. João de Castro.

 

A empreitada no Passos Manuel custou mais de 23 milhões de euros, quando o estimado inicialmente era de cerca de 16 milhões. Faço as contas de cabeça e dá-me um deslize de cerca de 50%. O trivial, portanto.

 

Mais excertos: "trabalhos a mais sem justificação, que fizeram disparar o custo em mais 13,2% do que o previsto inicialmente"; "inúmeras desconformidades entre o que foi contratado com a empresa HCI Construções e aquilo que foi efectivamente executado"; "violação do regime legal de fiscalização prévia já que os contratos não foram sido submetidos à aprovação do Tribunal de Contas". É um léxico que se repete: desconformidades, violação, ilegalidade, indevido.

 

O TC refere também que a Parque Escolar pagou cerca de 640 mil euros à empresa construtora "a título de 'margem' de 25% sobre os orçamentos dos empreiteiros/fornecedores". A Parque Escolar pagou 640 mil euros "a título de margem de 25%"? Isto quer dizer que a Parque Escolar achou por bem oferecer uma margem de 25% sobre os orçamentos dos empreiteiros, que obviamente (para mim, mas eu não sou seguramente nenhum génio) já deviam ter a sua própria margem de lucro?

 

Se formos ao site da empresa HCI Construções, que é referida na notícia, vemos que ela se anuncia nestes termos:

 

A HCI Construções, S.A. orgulha-se de ser uma das empresas mais estáveis e prósperas do sector de Construção, nomeadamente, na Reabilitação e Remodelação de Edifícios.

 

Rentável e próspera? Pudera...

 

Ao longo do nosso percurso fomos crescendo sempre atentos à realidade que nos envolve, com interesse pela evolução do mercado e empenho na construção do futuro... sempre que possível, antecipando-o. Assim alcançámos a posição que hoje ocupamos.

 

"Atentos à realidade", "com interesse pela evolução do mercado", "sempre que possível, antecipando". Parece evidente que sim, a empresa tem estado com imensa atenção "à realidade" e que "antecipa" bastante bem "a evolução do mercado" - com lobbying.

 

Mas acho particular piada a este parágrafo da notícia:

 

Para a climatização foram pagos mais de dois milhões de euros, mas conforme a auditoria apurou os equipamentos estão desligados "dadas as dificuldades orçamentais da escola face ao aumento das despesas de funcionamento, o que contribuiu também para a falta de qualidade do ar nas salas de aulas, por inexistência de ventilação natural".

 

Tem-se um ar condicionado caríssimo, mas quando não há dinheiro para ele - também não há ventilação natural porque esta tem de ser afectada para que aquele seja instalado. Isto é todo um retrato do homo-socraticus: preocupação com as aparências, se necessário a expensas de tudo o resto. É como comprar um plasma de 50 polegadas para ver televisão - e depois não ter dinheiro para o serviço da Zon.

 

Maria de Lurdes Rodrigues disse que a Parque Escolar foi uma festa. Mais do que uma festa, eu diria que foi uma farra. Aliás, mais do que uma farra, eu chamaria a isto um autêntico bacanal. E como em qualquer bacanal que se preze, há aqueles que fodem e aqueles que são fodidos.

link do postPor João Sousa, às 11:12  comentar

 
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