A sério que sim
18.7.12

A Esquerda tem destas coisas: não quer que o clero tenha qualquer posição política - excepto quando é para atacar a maléfica Direita. Aí, é vê-la a salivar, qual cão de Pavlov.

 

D. Januário é um caso interessante. Ainda há umas semanas, quando vieram a público detalhes sobre a sua reforma, ele garantia que 2500 euros "depois de décadas de trabalho" não é nenhuma fortuna, e queixava-se do que lhe era retirado em impostos. Num país em que múltiplas famílias se sustentam com uma fracção desse valor, não deixam de ser palavras inesperadas na boca de um sacerdote (que supostamente devia mostrar desprendimento pelas cousas materiais).

 

Ora este D. Januário parece-me retratar na perfeição quatro dos pecados mortais: avareza, ira, (imensa) soberba - e a julgar pelas bochechas, gula.

 

Sobre a avareza, estamos falados. A imensa vaidade, é evidente de cada vez que lhe é colocado um microfone à frente. A ira? Fosse D. Januário transportado para as Cruzadas, e era vê-lo na linha da frente, de dente rilhado, a decapitar infiéis - e deixá-los empalados para servirem de exemplo. Fosse D. Januário presente ao tempo da Inquisição, e seria o primeiro a chegar o fósforo às piras.

 

Felizmente para ele, a sua alma está salva pela óbvia pobreza de espírito. Pois só a sandice, só um profundo esgotamento mental, explica que alguém que se considera "sério" diga que "os anteriores, que foram tão atacados, eram uns anjos ao pé destes diabinhos negros que acabam de aparecer", e que este Governo é "profundamente corrupto".

 

Quanto à corrupção, da qual estou certo que D. Januário já apresentou provas no Ministério Público ou à PGR, gostaria que explicasse o que já foi feito neste Governo que tenha superado as negociações ruinosas das PPPs; as múltilplas trafulhices que rodearam as SCUT, e as negociações das SCUT, e os contratos das SCUT, e os chips das SCUT; a imensa festa que foi a Parque Escolar; a farsa Magalhães; o cinzentíssimo processo da OTA; o opaco processo do TGV... só estas bastam, embora fosse possível continuar.

 

E anjos? Estes são os anjos de D. Januário: José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Paulo Campos, Maria de Lurdes Rodrigues, Augusto Santos Silva, Ricardo-Três-Dedos-Rodrigues, Armando Vara, Rui Pedro Soares... e tantos, tantos outros "anjos" que eu nem menciono por saber que me esqueceria de outros tantos.

 

Eu quase lamento a alínea dos "pobres de espírito". É que entrar no Céu à conta da idiotice (inata ou adquirida) parece-me chico-espertice - ao nível de uma licenciatura com 30 equivalências ou exames por fax e certificados dominicais (o dia do Senhor, ainda por cima). É safar-se por uma "technicality".

 

D. Januário devia ser triplamente cauteloso nas suas tomadas de posição públicas: por ser sacerdote da Igreja, entidade que se quer o mais isenta possível; por, dentro desta, ocupar uma posição hierárquica de óbvia importância; e por ser bispo das Forças Armadas, entidade que também se pretende à margem do combate político.

 

Infelizmente, estas declarações de D. Januário não surpreendem quem lhe tem acompanhado a já longa carreira artística. Qual pavão enfunado perante as câmaras, ele mostra-se como aquilo que é: um rufia.

link do postPor João Sousa, às 08:43  comentar

 
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