A sério que sim
14.9.12

Ao longo da História, os detentores do poder sempre ambicionaram deixar a sua marca para a posteridade. Olhemos para os sucessivos alcaides de Lisboa e o fenómeno mantém-se. Santana Lopes deixou um túnel no Marquês. João filho-do-pai Soares, quiçá inspirado no brilho que outrora teve a pirâmide de Kheops, quis deixar uma Lisboa coberta de ladrilhos e um elevador a angular as colinas da cidade. Sampaio acabou por nos deixar... João Soares. 

 

Como em séculos antigos, umas vezes a obra é útil (não conheço quem use o túnel do Marquês sem gabar a sua conveniência), outras vezes reflecte apenas o ridículo do seu pensador (os delírios de João Soares). António Costa, desejoso de se ver numa cadeira, só ainda não sabendo se na de Cavaco Silva ou Passos Coelho, também se vai esforçando por deixar o seu aleijãozinho na cidade: foram as folclóricas ciclovias, é agora a retorcida ideia da rotunda do Marquês desdobrada.

 

Lisboa, pelos vistos, está perfeita. Não há lixo nas ruas; não há cheiro a urina nas portadas dos prédios; não há edifícios a esboroarem; não há passeios esburacados; não há estaleiros em constante migração e a deixarem uma película de areia no pavimento. Lisboa, na ideia de António Costa, está tão perfeita que ele se pode dar ao luxo de fazer experiências num dos seus centros de circulação (pois é assim que a directora municipal do Departamento de Projectos e Obras, Helena Bicho, se lhe refere - "um período experimental"). Experiências que já custaram mais de meio milhao de euros, fora o estorvo causado em quem passa por aquela zona. Experiências planeadas pelos exércitos de "técnicos camarários", que descuram detalhes que um reformado em passagem detecta:

 

"Senhor presidente, ninguém me encomendou este sermão, mas deixe-me que lhe diga: além da magnífica obra, a Câmara conseguiu criar o futuro 'Rio do Marquês'".


Tantos senhores engenheiros e senhores directores, tantos cargos, tantos salamaleques, tantos diplomas pendurados nas paredes, e é um reformado dos andaimes quem chama a atenção para o facto de a ninguém ter ocorrido construir estruturas para escoar as águas. E se de facto, como é dito, os escoadores não foram esquecidos mas sim protelados para depois da "fase de experiência", consegue ser igualmente mau: pois como querem os senhores camarários analisar seriamente os resultados da obra se, com a primeira chuvada, as inundações retiram qualquer objectividade aos mesmos?

link do postPor João Sousa, às 12:15  comentar

 
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