A sério que sim
24.9.12

Maria Teresa Horta, comunista, ex-militante do PCP, recusou ir receber o Prémio D. Dinis porque este lhe seria entregue por Pedro Passos Coelho.

 

"Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país", explicou Maria Teresa Horta à Lusa.

 

Há aqui várias questões que acho curiosas.

 

Para começar, Maria Teresa Horta é uma democrata - ou pelo menos afirma-se como tal. Por isso, é irónico que se recuse a receber um prémio das mãos de alguém que, concorde ou não com ele, foi eleito democraticamente pelo povo que ela tanto diz defender. Pelo contrário, este perigoso destruidor dos "valores de Abril" chamado Passos Coelho estava disponível para entregar um prémio a alguém com quem, imagino, não tem grande afinidade política e de cuja obra - sou capaz de apostar - não é grande admirador. Fosse Maria Teresa Horta uma pessoa de facto frontal e coerente, iria receber o prémio - e diria pessoalmente o que vem articulando pelos jornais. Mas estas pessoas de esquerda só sentem legitimidade nos eleitos - quando são os seus.

 

Depois, Maria Teresa Horta repete-se muito honrada pelo prémio que lhe foi atribuído e pelo júri que a considerou merecedora dele. Apesar disso, não se impede de mostrar como a sua vaidade e as suas antipatiazinhas se sobrepõem a tanta honra e a tanto reconhecimento. Quando coloca o seu ego e o prémio D. Dinis na balança, esta inclina-se visivelmente para o primeiro.

 

Maria Teresa Horta diz que Passos Coelho "está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril". Ora quanto mais eu sei do pensamento político de "fazedores de Abril" como o camarada Otelo ou o camarada Vasco, mais me parece óbvio que se estes tivessem levado a sua avante, estaríamos sob um regime em que alguém como Maria Teresa Horta, por se recusar a receber um prémio das mãos do chefe de Governo, usufruiria de um período de reeducação a expensas do Estado. Ao invés, perante este "destruidor de Abril", é notícia de jornais e tem publicidade gratuita.

 

Para terminar, pois isto já é uma atenção desproporcionada: Maria Teresa Horta recusa receber o prémio - que muito a honra - de mãos que a desgostam. Mas o cheque, o chequezinho, esse segue pelo correio e não se recusa. Acho que Fernando Albuquerque, presidente da Fundação Casa de Mateus, coloca a questão muito bem: Maria Teresa Horta "receberá o cheque em casa e fica o caso encerrado".

link do postPor João Sousa, às 00:24  comentar

 
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