A sério que sim
5.8.14

 

Há vários tipos de esquerda. Em Portugal, temos essencialmente dois.

 

Um deles é representado pelo PS e pelos estafermos que vão trocando de cadeiras nos seus orgãos de liderança. Trata-se daquela esquerda que não é bem esquerda mas também não é direita. Não se querem chatear com nada e estão convencidos que, independentemente do cavalo em que apostem, chegarão ao poder por osmose. Arrastam-se pelos bastidores da política, tentando agarrar-se à única carreira profissional na qual terão alguma real oportunidade.

 

O outro tipo de esquerda que Portugal alberga, de forma algo desafortunada, é corporizado pelos tontinhos do "eu é que sou o mais revolucionário", actuais e anteriores líderes, dissidentes e promotores dos 37.651 partidos que procuram orbitar a cada vez menos gravítica esfera de influência do Bloco de Esquerda.

 

Os felizes integrantes do primeiro grupo tornaram-se quase caricatos. A disputa interna, uma versão ordinária das primárias promovidas na política norte-americana, tem sido um espectáculo doloroso de assistir. Já cansou toda a gente e colocou em risco a vitória nas eleições legislativas face a uma coligação que, provavelmente, as perderia contra uma cadeira de escritório do IKEA.

 

Os segundos, elementos notáveis da burguesia portuguesa, são alvo do merecido desprezo da população. Os eleitores têm olhado para eles com o carinho que dedicam a Raymond, a personagem brilhantemente interpretada por Dustin Hoffman no filme Rain Man (1988), embora incapazes de lhes reconhecer o esporádico bilhantismo savant do irmão autista de Charlie Babbitt. Há, no entanto, manifestações de desonestidade intelectual que não devem passar em claro. É o caso da reacção da meia líder do Bloco Catarina Martins, após o anúncio da medida de resolução do Banco de Portugal, como resposta à situação do Grupo Espírito Santo.

 

De forma razoável, a crise será contida, pelo menos do ponto de vista teórico, dividindo o grupo em dois, ficando os principais accionistas responsáveis pelas perdas, com a criação de um badbank, sendo o BES recapitalizado com recurso a um empréstimo proveniente do fundo de recapitalização da banca nacional, criado para o efeito aquando do resgate português. É a única solução que protege os contribuintes e "chama à pedra" os principais accionistas do grupo, responsáveis pelas tomadas de decisão que criaram o caos. Catarina Martins, desonesta, desgrenhada e com os nervos à flor da pele, foi a primeira a tomar o palco, balbuciando um chorrilho de disparates, debitando uns soundbytes dirigidos a quem, de forma legítima, não compreende os contornos da operação.

 

É por causa de gentalha como esta que a política portuguesa é uma merda.

link do postPor António Pinto, às 12:38  comentar

 
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