A sério que sim
11.9.15

Freitas do Amaral jamais perdoou ao PSD este não o ter conseguido eleger para a presidência da república. A partir daí, e porque os confortos da vida são mais valiosos do que manter uma coluna vertebral direita, vem convergindo sempre para a faixa do PS.

 

Nos tempos de Sócrates, apareceu, qual pequeno-almoço com Figo, na véspera de eleições a afirmar-se "convencido" pelas propostas do PS. Porque estas coisas têm um preço, lá recebeu o seu ministeriozito como recompensa. Agora, sem surpresa para mim, vem manifestar publicamente o seu apoio ao "experiente, sério e democrata" (sic) António Costa.

 

Eu não prestei muita atenção ao que ele escreveu, tal como não prestei muita atenção ao debate, por uma simples razão: decidi que se o eleitorado os quer de volta, então que depois limpe as mãos à parede. Contudo, mesmo lendo na diagonal a missiva amaraliana, duas ou três ideias saltaram-me à vista.

 

Freitas do Amaral acusa Passos Coelho de hipocrisia ao gabar a sua estabilidade governativa apesar de ter perdido quatro ministros em três anos: Victor Gaspar, Miguel Relvas, Álvaro Santos Pereira e Miguel Macedo. Esquece-se convenientemente de o seu anterior patrão, José Sócrates, ter perdido o seu primeiro ministro das Finanças ao fim de poucos meses, mal este viu o desvario que se aproximava. A estabilidade, para Freitas do Amaral, é um conceito com pesos diferentes conforme se manifesta no lado direito ou no lado esquerdo. E Freitas do Amaral também se esquece, muito convenientemente, de que dois ministros de Passos Coelho apresentaram a demissão por estarem, directamente ou indirectamente, envolvidos em questões duvidosas - o que é uma variação refrescante depois do longo consulado governado por Sócrates.

 

Freitas do Amaral diz esperar que o PS defina, porque o dinheiro não chega para tudo, prioridades nacionais no plano cultural, e que evite desastres colossais como o megalómano edifício do Museu dos Coches. Tem piada como, quando se está na Esquerda e a cheirar o poder, já o dinheiro não chega para tudo e é necessário definir prioridades. Mas o mais repugnante é que Freitas do Amaral se pareça esquecer, muito convenientemente, de que o tal colossalmente desastroso edifício megalómano do Museu dos Coches foi um projecto do governo de Sócrates, adjudicado pelo governo de Sócrates e cuja construção foi iniciada ainda durante o governo de Sócrates.

 

Finalmente, e aqui é que eu levei as mãos à barriga de riso, Freitas do Amaral, o tal que apoiou e foi ministro de José Sócrates, acusa Passos Coelho de ter um estilo "neoautoritário" (magnífico!) e acusa-o também, Freitas do Amaral que apoiou e apoia e foi ministro de José Sócrates, de ter aos poucos conseguido controlar quase todos os órgãos da comunicação social. Passos Coelho controla a comunicação social - num mundo em que o ex-advogado de José Sócrates controla o grupo que possui o DN, JN e TSF entre outros; em que o grupo de Balsemão dá guarida a tudo o que é crítico da coligação e deu guarida, a troco de um chorudo ordenado, a António Costa na Quadratura do Círculo; em que a outra televisão privada, TVI, é dirigida por um assumido amigo e admirador de José Sócrates; em que o Público tem um corpo editorial e uma linha de orientação que parecem saídos do PREC.

 

Freitas do Amaral devia-me merecer uma gargalhada, ou até um abanar de cabeça condoído. Freitas do Amaral, contudo, só me causa repulsa.

link do postPor João Sousa, às 10:51  comentar

 
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