A sério que sim
18.2.14

Ontem, ao fazer o meu zapping final pelos canais do Cabo, passei pela maquilhada Canavilhas a ser entrevistada na Sic-Notícias. Não vi se ela falou - de novo - da já velha história dos Mirós (certamente que, como "culta", o fez). A falar verdade, não me interessa, pois basta ler os jornais ou a blogosfera para perceber como o assunto Miró continua vivo - e continuará durante muito tempo. Estou certo de que será uma repetição dos submarinos de Portas que, como o cubo mágico ou o iô-iô, periodicamente retornam à visibilidade.

 

Eu não falei muito no assunto porque, francamente, sempre pensei que não haveria muito para falar. A questão é que a alucinação parece ser transversal ao espectro político.

 

A Esquerda quer os quadros porque são "cultura". A Esquerda sabe que todo este imbróglio BPN custou um buraco negro nas contas do Estado e, por consequência, ao contribuinte, mas a Esquerda não quer abrir mão dos Mirós. Isto não é surpresa para ninguém. A nossa Esquerda sempre se comporta como uma família arruinada da nobreza que, ao revolver um sótão esquecido, descobre uma baixela de prata e, por mera vaidade, se recusa a vendê-la - preferindo usá-la para as refeições de família onde comem sopa de água quente temperada com poeira.

 

Não. Aquilo que me surpreende não é a palermice na Esquerda. O que me choca é a palermice na Direita, que afirma ser boa ideia ficar - já agora... - com os quadros e rentabilizá-los em exposições.

 

É claro que seria uma boa ideia ficar (já agora...) com os quadros - se pudéssemos. Mas também seria uma boa ideia se estes últimos senhores nos dissessem em quanto tempo projectam que os quadros, via exposições e cedências, gerariam lucro suficiente para compensar os 40 milhões que valem agora em leilão.

 

Falemos a sério. Em Portugal, o cidadão-médio: não consegue nomear dois museus; não conhece mais do que dois realizadores de cinema (conhece o Vasconcellos por causa dos comentários de futebol, e o Manoel de Oliveira porque é velho); nunca colocou os pés na Gulbenkian, nem sequer para usufruir dos jardins numa tarde de Verão; e só vai passear ao Parque Eduardo VII num fim-de-semana avulso durante a Feira do Livro - para ver as roulottes de farturas e comprar um pacote de queijadas.

 

Num país assim, quantas décadas seriam necessárias para o Estado conseguir recuperar, à base de exposições e turismo, os cerca de 40 milhões que não obterá com o cancelamento deste leilão?

 

Posso dar um palpite? Não serão décadas nem séculos. Mais cedo viria o Big Crunch ou o Big Freeze.

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link do postPor João Sousa, às 12:53  comentar

 
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