A sério que sim
21.1.14

 

A tragédia do Meco, tal como tudo o que tem sido dito após a mesma, traz à luz muito do que está errado na sociedade. É normal que, num momento de luto e dor, os familiares mais próximos dos que morreram tropecem, às cegas, em busca de culpados. O que é indigno é o aproveitamento desse impulso para montar em torno do caso um lamentável alarido de caça às bruxas.

 

Não pretendo, com isto, fazer qualquer juízo de culpa ou inocência em relação ao sobrevivente (ao contrário de muitos, confesso a minha ignorância), nem tão-pouco validar os rituais de praxe que, tal como são conduzidos em Portugal, não passam de manifestações jurássicas de domínio sobre cinzentas criaturas, que a tudo se submetem para que lhes seja dada a oportunidade de fazer parte de alguma coisa. Para mim, uma instituição que promove ascensão hierárquica através da capacidade de emborcar cerveja aos litros não merece qualquer tipo de respeito. Ao invés, destacam-se duas coisas:

 

- durante todo este circo, ouvimos jovens dizer que as praxes as preparavam para a vida e que uma das estudantes que faleceu nesse dia "vivia para a comissão de praxe". Algo está muito errado quando mulheres adultas consideram que rastejar na lama em busca de objectos ou simular práticas sexuais perante um auditório lotado de grunhos é preparação para a vida. Também me parece sinistro que uma jovem, aparentemente ajustada, dedique a sua vida a uma organização dotada de uma rigidez estrutural que representa tudo menos o carácter dos seus constituintes;

 

- conheço razoavelmente bem a maravilhosa Praia do Meco. Conheço, por isso, a violência inenarrável do seu mar, mesmo nalguns dias de Verão. Em 7 pessoas, 6 acharam que seria boa ideia aproximarem-se daquele mar, numa madrugada de inverno, enrolados numa capa, quando as ondas batiam nos 7 metros. Podemos levantar muitas dúvidas acerca dos detalhes que envolveram a tragédia, mas não devemos, a título algum, alimentar a cultura de desresponsabilização individual em que tantos parecem sentir-se confortáveis.

link do postPor António Pinto, às 09:58  comentar

1.4.12

O Homem, criatura que se atribui (sem corar) o título de "único animal racional", desmente-se continuadamente em relação à racionalidade e esquece-se da sua animalidade - enquanto pratica esta de forma infrene.

 

Hoje, percorri na transversal o Jornal de Notícias online. É um verdadeiro desfilar de horrores. Tal como Dante, descemos ao Inferno e vemos a corrupção, a loucura e a podridão que existem neste nosso pequenino rectângulo de mundo.

 

Aqui, um idoso de 73 anos tentou agredir a tiro e à martelada uma vizinha que fazia mudanças às 10 da noite. Já não se acredita na existência de uma Autoridade que nos proteja da insensatez e da falta de civismo: responde-se - de forma algo desproporcionada, diria eu - com um martelo e uma pistola apontados à cabeça.

 

Aqui, um bancário (estamos a falar de um director de banco, não de um trolha avinhado ou de um cavador de batatas algures numa quinta isolada) violou e agrediu a filha adoptiva, de forma sistemática e ao longo de sete anos. O notável cavalheiro justifica-se afirmando que se apaixonou pela criança e que ela também "queria" ter sexo com ele. A jovem tem hoje quinze anos: se a matemática não me falha, este gentil-homem iniciou os abusos (ou, segundo ele, "apaixonou-se") quando ela tinha oito anos. Eu repito: 8.

 

Aqui, o língua-de-pau Manuel Tavares, director do jornal, faz um ridículo exercício de revisionismo: apresenta-nos um Sócrates trágico e injustiçado, um Sócrates tão paralelo à realidade que conhecemos que se diria resgatado a um outro universo. O Sócrates que Manuel Tavares nos pintou no Sábado (logo, não penso ser uma brincadeira de Dia das Mentiras) foi "um líder demasiado forte", um líder temido e detestado por aqueles homens menores que eram incapazes de acompanhar o seu "trabalho intenso para estar informado". Um Sócrates que criou adversários no interior do seu partido por procurar fora dele "pessoas e instituições que o ajudassem a concretizar as suas políticas" (vêm-me à memória três exemplos desse escol: Armando Vara, Joe Berardo, JP Sá Couto). Um Sócrates que "nos últimos meses de governação (...), quando já declarara a absoluta necessidade de atacar a dívida acumulada bem como as despesas de funcionamento da Administração Pública" (dívida e despesas pelas quais, fico em crer, Manuel Tavares não imputa qualquer responsabilidade aos desmandos desse Übermensch chamado José Sócrates), foi traído por "passarões especialistas em usar e abusar dos cartões de filiação partidária" que "desataram a arranjar empregos para a vida a familiares e amigos ou a concluir negócios improváveis à luz da falta de dinheiro e dos sacrifícios que a crise já prometia". Foi assim que se passou, remata o oráculo Tavares, o pitoniso Tavares.

 

Para quê deprimir por um passado que já não pode ser corrigido? Este presente é grotesco o suficiente para o fazer pelos seus méritos - com a (des)vantagem de ser alheio.

link do postPor João Sousa, às 13:07  comentar

16.3.12

 

O Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não é virgem neste tipo de ideias. Há tempos, sugeriu um imposto sobre a fast-food. Agora, mostrou um biscoito de 50 quilocalorias, muniu-se de uma calculadora, e concluiu que:

 

(...) comer um biscoito todos os dias, sem compensar noutras refeições, representa mais 18250 quilocalorias ao ano, o suficiente para engordar 2,5 quilos. Se a opção for abatê-los com exercício, seria preciso andar 1 Km por dia.

 

Eu proponho o seguinte: quem for a um supermercado e quiser comprar um pacote de Belgas, tem de provar à priori que percorreu um determinado número de quilómetros. [Cada pacote de comida teria esse número na embalagem - um pouco como os avisos nos maços de cigarros.] A Ordem dos Médicos coloca nos percursos à beira-Tejo um conjunto de equipamentos onde o cidadão pode registar as suas caminhadas. Munido do seu relatoriozinho, apresenta a folhinha na caixa do supermercado. A funcionária compara a quilometragem do cliente com a exigida pelas bolachas e, ou coincide e aceita, ou verifica que o cliente está em falta e recusa:

 

- Não, não, precisava de ter percorrido mais 570 metros para comer estas bolachas. O seu relatório de exercícios só lhe dá direito a três Gressinos.

 

Como o delírio do bastonário não fosse já evidente, prosseguiu:

 

"A discussão lançada pela Ordem contribuiu para a subida do IVA nos refrigerantes." Na sua opinião, ainda não é suficiente. (...) "Não deviam ser taxados a 23%, mas a 100%".

 

E porquê ser-se tão pouco ambicioso? Porque não 500%? Porque não obrigar quem se pretende envenenar com estas águas sujas do imperialismo, óbvio comportamento anti-social, a cumprir serviço comunitário?

 

"Impostos inteligentes", dizem eles. Gente parva, digo eu.

 

A tese, partilhada por alguns fanáticos de pupilas dilatadas, de que o Estado deve proteger-nos de nós próprios regulando a quantidade de calorias que nos é permitido enfiar na goela, devia preocupar as pessoas mentalmente sãs. Seria um precedente grave, este, o de permitir que se limite abusivamente a liberdade individual de um indivíduo com o pretexto de isso "reduzir os futuros encargos do SNS suportado por todos nós". Porque, a partir daqui, seria impossível negar a extrapolação para outras áreas. E a literatura está cheia destes admiráveis mundos novos:

 

- Grupo dos trinta aos quarenta! - latiu uma estridente voz feminina. - Grupo dos trinta aos quarenta! Para os vossos lugares, por favor. Trinta aos quarenta!

 

Winston pôs-se em sentido diante do telecrã, onde já aparecia a imagem de uma mulher ainda jovem, magra mas musculada, com uniforme e sapatos de ginástica.

 

- Flectir e esticar os braços! - vociferou. - Acompanhem o meu ritmo. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vá lá, camaradas, um pouco mais de energia! Um, dois, três quatro! Um, dois, três, quatro!...


 1984, George Orwell

link do postPor João Sousa, às 12:02  comentar

27.1.12

Decorre, por estes momentos, o congresso da CGTP. Carvalho da Silva despede-se (?) do cargo de líder sindical depois de 35 anos de uma brilhante carreira... de nada. A um sindicalista devoto e profissional, comunista e católico (assim o definiu a RTP), nada mais se lhe reconhece, como contributo social, económico ou qualquer outro, do que a instigação à agitação social gratuita e a organização de manif's vermelhas a descer a Avenida. Parece ser esta a fórmula mágica para ser um sindicalista de carreira em Portugal: pôr a cassete a tocar e sair para a rua, de cartazes na mão. Em sede própria, nem uma proposta aproveitável.

 

Perante aquilo que seria uma oportunidade para mudar de rumo e colocar o sindicalismo português na senda do excelente trabalho feito por sindicatos em alguns países da Europa, a CGTP adopta a postura que qualquer organização de matriz comunista tem adoptado ao longo da história de erros que tem sido o comunismo no Mundo: assobiar para o lado, cerrar fileiras e ensimesmar-se. Arménio Carlos parece ser mais do mesmo ou pior: um sindicalista encartado com um percurso profissional totalmente desconhecido, fiel seguidor da doutrina comunista desde há 30 anos (não é díficil, está exactamente igual), cego às importantes mudanças sócio-económicas que o planeta atravessou nas últimas décadas, prepara-se para manter a pesada intersindical de cachaço erguido e pêlo eriçado, rosnando à sociedade que vai calmamente passando por si.

link do postPor António Pinto, às 15:03  comentar

17.1.12

Não resisto a deixar algumas palavras acerca do assunto, apesar do post do João.

 

Rudolfo, o jovem, e Sónia Patrícia, a mãe do jovem, protagonizaram, à saída do tribunal, uma cena digna de Rocambole. Após terem ouvido, por parte do colectivo, que o que afastaria Rudolfo, o jovem, da prisão seria um comportamento exemplar e destituído de violência gratuita (algo mais ou menos compreensível para qualquer símio), Rudolfo, o jovem, e Sónia Patrícia, a mãe do jovem (qual o nome modernaço-que-não-fere-susceptibilidades para delinquentes adultos?), agrediram uma jornalista que por ali estava fazendo o seu trabalho.

 

Prováveis beneficiários de um generoso RSI pago por todos nós, Rudolfo, o jovem, e Sónia Patrícia, a mãe do jovem, vão passeando a sua classe e civismo, cometendo aquilo a que alguns atribuem o engraçado epíteto de "pequenos crimes", de uma forma praticamente impune, à luz dos princípios do famosíssimo estado social e do infinito guarda-chuva da promessa de reabilitação e reinserção social.

 

Não quero que o dinheiro proveniente dos meus descontos para a Segurança Social sirva para habilitar, reabilitar, integrar, reintegrar, inserir ou reinserir seja o que for parecido com esta mole humana incorrigível. Faça-se o que se puder, que se dê apoio a quem o merece.

link do postPor António Pinto, às 11:48  comentar

Agressores do vídeo no Facebook condenados a pena suspensa:

 

Segundo o juiz-presidente, o tribunal teve em consideração a idade dos arguidos e as infâncias em 'meios desfavorecidos', julgando que a 'simples ameaça de prisão' será suficiente para que estes jovens não voltem a cometer crimes.

 

Confesso que isto sabe-me a pouco. Não estamos a falar de uns empurrões, um estalo na cara ou uma maçã furtada de uma mercearia. Eu vi o vídeo: achei-o digno de um episódio dos Sopranos, demonstrando "um grau de desprezo pela pessoa humana que deixou atónito o tribunal". Penso que a estes jovens de "meios desfavorecidos" (no meu tempo, seriam chamados "delinquentes") devia ter sido oferecida uma estadia, em regime de pensão completa, de pelo menos uma semana na cadeia, para terem uma verdadeira noção da realidade que os espera - e de um conceito entretanto caído em desuso: sofrer a consequência dos actos.

 

Agora, para terminar num registo mais leve, vejamos em sequência estes três excertos da notícia:

 

(...) o tribunal [julga] que a "simples ameaça de prisão" será suficiente para que estes jovens não voltem a cometer crimes. José Lopes Barata alertou os arguidos de que, caso as expectativas do colectivo sejam defraudadas, "as penas serão cumpridas".

 

O advogado do jovem que filmou as agressões também se mostrou satisfeito com a decisão (...). Carlos Viegas declarou-se confiante de que o jovem "tem perfil" para melhorar.

 

Após a leitura do acórdão, e à saída das varas criminais, o jovem agrediu uma jornalista que se encontrava no local com um pontapé, tendo sido ajudado pela mãe.

 

Vê-se que o jovem "tem perfil" para melhorar. O jovem está, realmente, cheio de perfil para melhorar. Nota-se que "a simples ameaça de prisão" foi suficiente para este jovem abraçar uma vida de ética e responsabilidade. Eu só gostaria de saber se agredir a pontapé uma jornalista, minutos depois de o tribunal ter afirmado que as penas seriam cumpridas no caso de as expectativas do colectivo serem defraudadas - é defraudar as expectativas do colectivo.

link do postPor João Sousa, às 10:52  comentar

7.12.11

Primeiro, falou-se da necessidade de ajuda externa à Grécia, pronta e veementemente negada por quem de direito. Seguiu-se a ajuda externa à Grécia. Depois, falou-se da necessidade de ajuda externa à Irlanda, mais uma vez rejeitada pelas autoridades. Seguiu-se, como se sabe, a ajuda externa à Irlanda. Exactamente a mesma coisa se viria a passar com Portugal. Agora, a necessidade da moda que os "powers that be" têm vindo a ignorar é a inevitabilidade da ajuda externa a Itália e, a cereja no topo do bolo, o fim do Euro. Se a capacidade preditiva das sumidades que gerem a Economia do espaço europeu se mantiver com a precisão que a história recente nos mostra, então todos sabemos como tudo acabará.

 

Creio que está na hora de parar um pouco para pensar. A Europa entrou numa rotina incomportável de atirar com centenas de milhões de euros de um lado para o outro, como se nada significasse. São tempos loucos, nos quais líderes em transe, dominados por histerias eleitorais, vão lançando os europeus para o abismo. O sistema falhou. O actual modelo de organização política e social não responde à necessidades reais nem de pessoas nem de Estados. A partidocracia proto-democrata deu-nos algumas décadas de ilusões, que vamos pagar amargamente. Preocupam-me, acima de tudo, os movimentos anarquistas que se vão levantando do chão aqui e ali, pois no desespero até esses podem parecer uma solução às massas desvairadas. Preocupa-me Portugal, a Europa e o Mundo. Existe, dentro de cada sociedade, um insaciável desejo de destruição mútua por parte de grupos políticos, religiosos ou associados a outras classes. Não existem lideranças fortes, existem espantalhos que procuram eternizar-se agradando a uns e a outros, acabando por deixar uma pegada nefasta entre as hostes que deveriam ter protegido.

 

É o caminho errado. É o sistema errado. Quando tempo demoraremos a percebê-lo?

link do postPor António Pinto, às 11:48  comentar


 
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