A sério que sim
9.8.13

Uma das coisas que me entedia nas militâncias folclóricas, e em particular nas associadas ao que se convencionou chamar "estilos de vida", é o ar de superioridade moral que exibem. O problema disto é que as ilusões de superioridade moral servem amiúde como justificação para se isentarem do cumprimento das regras comuns - porque se julgam, afinal, num patamar superior da ética. A coisa piora ainda mais quando existe uma classe política pronta a apoiar certas bandeiras a troco do voto destas franjas - e poucos, assim, acabam por perturbar muitos, até porque a sociedade se resignou, a bem do politicamente correcto, a não reagir perante os comportamentos destas minorias folclóricas.


Veja-se o caso dos "ciclistas urbanos". Arrogam-se como solução para o trânsito, para a poluição, até para a saúde pública - e é vê-los, alegremente, a passar semáforos vermelhos, a andar pelos passeios a alta velocidade, a desrespeitar passadeiras (no entanto, ai de um peão que esteja sobre uma das ciclovias quando os cavalheiros pilotam as suas máquinas). Mas são "cool", fazem umas fotografias "radicais", acham-se de Esquerda por se acharem "transgressores" do status-quo. Perante esta gente, logo apareceu um idiota como o Zé-que-nunca-fez-falta a cobrir os passeios de ciclovias praticamente às moscas, e um António Costa que afirma querer substituir os carros por bicicletas - como se tal, pela meteorologia e pela geografia da cidade, fosse uma coisa possível. Quanto mais vêem esta aparente legitimação da sua filosofia pessoal, mais aumenta o fanatismo do pessoal das bicicletas.


Cenário: passadeira no Cais do Sodré, 13h, 6 de Agosto. A passadeira está lá: há um sinal de trânsito a indicar a presença da passadeira; as regras de trânsito estipulam que os peões têm prioridade nas passadeiras; as bicicletas, os seus utentes parecem esquecê-lo, são veículos; sendo veículos, os seus condutores têm obrigação de andar nas faixas de rodagem e seguir as regras do código; os ciclistas, quando montados nas suas bicicletas, são obrigados a respeitar a prioridade dos peões nas passadeiras.


Pois naquele fatídico 6 de Agosto, enquanto várias pessoas já se encontravam sobre a passadeira, um pequeno mamífero, montado na sua bicla, atravessou-a sem sequer abrandar, forçando duas senhoras a saltarem para não serem abalroadas e vários outros peões a imobilizarem-se para que Sua Alteza Bicicleteira seguisse o seu caminho, talvez na direcção de futuros canoros.


Eu próprio estava ainda razoavelmente longe da passadeira em questão. Tenho pena, pois gostaria de ter demonstrado ao ciclista o que pensava da sua conduta.

 

O autor destas linhas, de camisola vermelha, chamando pedagogicamente
à razão um ciclista que desrespeita as regras de trânsito. 

 

E, no entanto, isto teria uma solução fácil. Bastaria que os Zés e os Costas tivessem a coragem de estipular que, se os ciclistas têm direitos acrescidos em Lisboa (pistas suaves exclusivas, subtraídas aos passeios e aos jardins, para darem às perninhas), também lhes seriam exigidos deveres: respeito pelo código da estrada, com coimas em caso contrário, e exigência de uma licença de condução - como é necessário para conduzir qualquer outro tipo de veículo.

link do postPor João Sousa, às 09:44  comentar

De Paulo Almeida a 13 de Agosto de 2013 às 13:04
Texto digno de um "carroligionário" de Carlos Barbosa.

Quantas vezes não terá do senhor visto, quem sabe até originado, a mesma cena? Sim, esta cena: pessoas que conduzem veículos motorizados e desrespeitam os peões na passadeira? Tenha pena também dos que certamente foi testemunha, coisa que se vê todos os dias, ou daqueles coitados que provavelmente já leu nas notícias e que não ficaram cá para contar a sua história. Lamento que esses casos não o tenham também motivado a generalizar e a escrever um texto, tão sério, tão desprovido de bom senso.

De um ciclista urbano que cumpre as regas de trânsito.

 
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